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Dependência afetiva - O que é e como lidar.


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Imagine que você comprou um apartamento. Mas ao invés de tomar a iniciativa de decorar e arrumar do seu jeito,  entregas as chaves a uma pessoa muito querida e deixa que ela decida por você. A medida em que  o outro assume as responsabilidades pela manutenção do imóvel, você apenas contempla.. de longe.....satisfeito....porque não precisa sair da sua zona de conforto. O outro escolhe... o outro.. decide. você perdeu a autonomia para mudar um vaso de lugar! Você está dependente do outro!


A dependência afetiva consiste exatamente nisso:dar as chaves da própria vida nas mãos do outro.

Infelizmente, existem poucas pesquisas sérias sobre o assunto. Pretendo enfatizar este tema na minha tese de doutorado. Mas fica a dica para os estudantes....O tema tem relevância social imensa.

Um dependente afetivo não  consegue visualizar sua vida sem o outro. Não necessariamente por ter uma personalidade dependente, ao contrário: muitas são pessoas bem sucedidas financeiramente, profissionalmente, conseguem ter um entorno de bons relacionamentos sociais, porém, não concebem a vida sem o seu par afetivo.

Considerando que somos seres biopsicossociais, tentarei discorrer sobre o tema considerando estes aspectos.

Uma possível inferência pode ser feita por meio da teoria do apego de Bowlby (1999), que aponta que a construção dos apegos na infância poderá determinar a forma como a pessoa irá se relacionar na vida adulta. De acordo com o teórico, uma criança que não vivenciou um padrão seguro de apego nos primeiros anos de vida, possivelmente terá dificuldades de vivenciá-los na idade adulta. Porém isto também não é determinante. Nem toda criança insegura será um adulto inseguro e vice-versa.

Outra forma de compreender a dependência estaria relacionada às incertezas que vivemos no atual momento sócio-histórico: de acordo com Bauman (1999), estamos atravessando a era da liquidez, onde tudo o que era estável e sólido "derreteu" se transformando em líquido. As facilidades tecnológicas possibilitam a troca de parceiros em apenas um clique, ampliando as possibilidades de escolha, dificultando a formação de vínculos sólidos. Isto tende a levar os indivíduos a vivenciarem uma "segurança líquida". Nosso cérebro não ainda não evoluiu a ponto de lidar coma rapidez vertiginosa das mudanças que ocorrem em nossa sociedade.

Neste cenário de modernidade líquida, onde os amores também são líquidos, a única certeza que se tem é a necessidade de afeto, apoio, carinho, compreensão e amor. Mas como garantir que o outro não nos deletará de sua vida? Não há garantias possíveis. Porém algumas pessoas acreditam que a única forma de assegurar o amor do outro é abrindo mão de si mesmo.

Este processo de "abrir mão de si mesmo", cria uma atmosfera de dependência, pois a intenção aqui pode ser a de aparentar fragilidade para que o outro sinta-se comovido com esta fraqueza e não abandone. Por este motivos algumas pessoas choram como crianças abandonas pelos pais, quando seu parceiro afetivo tomam a iniciativa de romper o relacionamento. O comportamento do adulto  neste caso, repete o da criança com padrão de apego inseguro (Bowlby, 1999).

Como lidar

Se você é dependente afetivo:

O primeiro passo é reconhecer-se como tal (parece óbvio, mas muitas pessoas negam esta condição, o que torna o tratamento difícil);

O segundo passo é procurar ajuda terapêutica, para conhecer suas potencialidades e aprender novas formas de exercitar sua autonomia perante os desafios da vida; Uma indicação: o treino de Habilidades sociais  da Terapia Comportamental pode ajudar bastante!

O terceiro passo é a prática: começar a viver parcialmente sem o parceiro. Por exemplo, diminuir o número de ligações diárias, de mensagens, começar a andar com as próprias pernas.

Se você convive com um dependente afetivo:

O primeiro passo é fazer uma análise detalhada da relação e verificar se não está alimentando esta dependência de alguma forma, mesmo das mais sutis.

O segundo passo é buscar ajuda terapêutica para trabalhar esta desvinculação gradativa: é o  "desmame", afinal, as vezes é doloroso perceber que o outro está caminhando com as próprias pernas.

O terceiro passo é incentivar a independência demonstrando que é possível amar sem viver uma relação "simbiótica" ou "Orobórica" (Oroborus é uma cobra mitológica que se engole do próprio rabo)



BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido. São Paulo. Martins Fontes; 1999
BOWLBY, John. Formação e rompimento dos vínculos afetivos. São Paulo. Martins Fontes; 1999

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